domingo, 29 de junho de 2008

"você é um homem ou um balde de Jaca"
- Frase célebre que inspirou a criação do movimento Jaquista e o texto a seguir "A vegetalização de um homem", escrito por Rafael Paiva -

A vegetalização de um homem

Planta crescendo em formato de silhueta humana, simbolizando vegetalização


Caro amigo,

Hoje venho a ti com imenso pesar,
Pois ao que um dia foi, nunca mais será.
Lembro com saudade daqueles tempos,
Nos quais tu nos guiavas pelos caminhos tortuosos da vida.
Nos mostravas obstáculos até então imperceptíveis à nossa escassa visão.
Nos conduzias, como um pai terno faz com seu filho, pelas turbulências do destino.

Mas hoje, creio que esses tempos áureos se foram.
Tempos em que nos reuníamos e celebrávamos a vida.
Celebrávamos a juventude,
Celebrávamos a sabedoria recém adquirida.
E, acima de tudo, celebrávamos a nós mesmos.

Apossou-se de nós uma imensa inquietação
Pois vemos hoje o que te tornaste.
E vendo que não temos mais aquele ser que nos iluminava,
Perguntamos aos ventos: E agora?
Será que tudo o que nos ensinaste era falso?
Como pode, ao doce tocar de lábios, um homem descer a tão baixo fosso?

Estamos, mais que tristes, perdidos.
Essencialmente perdidos.
Pois tudo o que aprendemos foi deturpado por aquele que nos ensinou.
Vejo com tristeza que os que um dia foram os três mosqueteiros,
Hoje não passam de três porquinhos.
É...

Como já dizia o filósofo: Quando fores ao encontro de uma mulher, levas contigo o teu chicote.
Sabemos que as descendentes de Vênus são criaturas amáveis, carinhosas e que enchem nossos corações de alegria.
Mas também sabemos que possuem uma estrada tenebrosa.
E me pergunto: O que aconteceu com o teu chicote, amigo!?
Terás perdido, ou foi transformado em laço de rosa!

Elas nos acusam de infinitas infâmias,
Mas são elas que cometem os maiores pecados:
Nos vegetalizam.
E nos tiram os amigos.

Sabes muito bem que ando por essa estrada vegetal já há algum tempo.
Mas nunca me ocorreu, nem mesmo em meus piores pesadelos,
Que tu, ao iniciar tão vil empresa, irias com tanta sede rumo ao abismo.

Sabes que, da mesma forma que um dia fui ao teu encontro em busca de conselhos, conhecimento ou mesmo consolo, virás ao meu com os mesmos propósitos.
E saiba que sempre, sempre, o aguardarei de litro aberto.
Pois em minha morada nunca faltará o doce mel de Dionísio para estes momentos.

Não o chamarei de hipócrita, pois não é de minha índole insultar meus semelhantes.
Mas saiba que tu o és.
Pois te transformaste em tudo aquilo que sempre combateste.

Saiba que já olhei para ti com admiração e reverência.
Hoje, olho com prudência.
Pois vejo, neste em que a prenhez nunca cessa,
neste em que o teto sagrado o tempo aos poucos renega,
apenas
Jaca.

Rafael Ribeiro Paiva
Petrolina, 27 de maio de 2008

terça-feira, 20 de maio de 2008

A vida vale a pena?


Às vezes penso que não.

Penso nas dificuldades que enfrento desde criança, na tristeza que vejo há muito tempo nos que estão perto de mim. Penso na incapacidade das pessoas e na impotência ante um cotidiano irrevogavelmente vazio. Penso ainda no potencial que todos temos para sermos infelizes. Penso na tristeza das perdas que sofri, nos amores que esqueci e nos que ainda terei de esquecer. Às vezes penso na vida que tenho e, apesar de não ser das piores, às vezes simplesmente não consigo gostar dela.

E de repente acordo.

Em um dia com um pouco mais de sol, com um pouco mais de vento. Em um dia talvez “nada a ver”, um dia desproposital. Então vejo minha família tomando café e penso em todas as dificuldades que enfrentamos e, mesmo com o pouco, conseguimos dar boas risadas. Penso no quintal de minha casa, no pé de goiabeira, nos cabos das vassouras que derrotavam meus inimigos imaginários, nas caixinhas de remédios pilotadas pelos bonecos de massa, no jeep do Rambo — que foi guerreiro até a carcaça. Penso quando dancei valsa com minha mãe na formatura da alfabetização e com minha irmã na da quarta série. Penso nas brigas com meu irmão, em como não me lembro de quando ficamos adultos e de quando elas acabaram. Penso na primeira vez que bebi com meus primos e nas músicas de vaquejada que ouvimos. Penso em meu primo Carlos Maelbe cantando aboios na madrugada de uma segunda qualquer em frente da minha casa. Penso nos meus amigos e nas besteiras infindáveis que conversamos e conversaremos. Penso em todas as vezes que sorri. Penso nos amores que ainda terei. Às vezes penso na vida que tenho, que não é das piores, e em todas as lembranças que conquistei, e às vezes simplesmente não quero que elas acabem.

- Bira -

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Era uma vez...



O que você tem a dizer?
Então diga.
Esta é a hora.
Este é o fórum: a vida.

Porque tudo está em branco,
desde o seu início
até o seu final.

Muito por se dizer,
páginas por escrever.

Deixe seus relatos,
escreva sua vida.
Conte tudo
e não omita nada.
Também não minta nada.

Suas recordações para você serão.
Este é o seu livro,
as páginas, suas experiências.

E por enquanto, experiências em branco,
experiências em preto.

Linhas de existência,
linhas por existir.

Preciosas memórias escondidas através do tempo.
Novos dias, novas palavras.

Não esqueça: as páginas passam.

Conte sua história.
Diga o que você tem a dizer.

- Bira -

sexta-feira, 21 de março de 2008

clareza
Ande apenas em uma direção
quando você for apenas um.

Seja um corpo,
ocupe um espaço de cada vez no universo.

Dizem que somos plural,
mas eu digo: não seja!

Não escute vozes,
apenas você fale.

Tenha um pensamento,
uma ideia de cada vez.

Concentre-se em um lugar.
Não se perca no infinito.

Apenas uma batida por vez,
um sentimento por vida,
uma pessoa por eternidade.

Um amor para sempre.

- Bira -

domingo, 16 de março de 2008

Sociedade do Ser

Vista aérea de pessoas em uma praça, formando um padrão geométrico

Às vezes... às vezes perdemos o controle. Raiva e ira, em alguns momentos, controlam nossas ações. Somos possuídos por um ímpeto, não irracional, mas que naquele ínterim de fúria eleva nossa força, percepção e habilidades. Isso ocorre quando somos ameaçados, acuados, pressionados. Sejam nossos pensamentos e ideias, seja nossa vida. Temos somente que reagir, escapar, enfrentar. Assim, ficamos mais fortes quando somos ameaçados; contudo, ficamos menos cerebrais. Será pelo desvio do fluxo sanguíneo para pernas e braços? Ou será que em épocas de perigo e instabilidade política faz-se necessário que o ditador assuma a democracia? A ditadura, é verdade, torna o sistema mais operacional e menos complexo. Menos conflituoso, eu acrescentaria. Logo, este governo comanda “o estado do ser” com agressividade e poucos questionamentos. Mas não sem racionalidade. Apenas com a inteligência necessária para derrotar o inimigo. Ou melhor, para responder à ameaça. Já que nem sempre a resposta está à altura da vitória. Queremos apenas reagir; esta é a prioridade.

Somos ameaçados o tempo todo. E por isso devemos ter o cuidado de não deixar a nossa democracia interior ruir. Nem toda ameaça é ameaça de facto. Nem sempre o radicalismo psíquico é justificável. Precisamos usar o controle. Ele surgiu a fim de que pudéssemos dominar nossas respostas. Moderar o ataque. Ou esperar nas trincheiras. Impedir que retornemos novamente à Barbárie.

Portanto, posso compreender o mundo como um esquema macro de nossa estrutura interior. Fizemo-lo conforme nossa imagem e semelhança. Quando você quiser conhecer-se melhor, apenas olhe e veja a sociedade que você está construindo. A civilização não é um puro acaso. Mas uma consequência de evolução interior em direção ao aprimoramento do controle e do domínio próprio. Permitam-me concluir com adstringência: civilizamos o comportamento, por isso não somos macacos. — P.S.: isso não é totalmente verdade.

- Bira -

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008




A primavera acorda lentamente
esta manhã,
e nela tu existes.

As estações solitárias já se foram,
e você está por toda parte.

Pois um jardim precisa de flores
e uma alma precisa de outra.

Este é um dia claro,
tenho perspectivas.
Tenho alguém diante de mim.

- Bira -